sexta-feira, 18 de maio de 2012

Sobre memória, livros e internet




Fui criado em uma família relativamente velha. Somos 3 irmãos, sendo eu o mais novo e a diferença de idade para o irmão do meio chega a ser 7 anos. Quando nasci, meus pais tinham 37 (Mãe) e 41 (Pai) e fui criado em um ambiente de muito cuidado, pois o relacionamento do casal não andava muito bem. Meu pai é Técnico em Contabilidade e minha mãe sempre foi secretária, ou seja, não era uma realidade muito fácil. Meus pais nunca demonstraram interesse pela leitura (infelizmente), mas graças a Deus sempre incentivaram os estudos e conseguiram me levar até a faculdade (Com muito esforço meu também). Me lembro que quando havia leituras obrigatórias no colégio, meus cabelos ficavam em pé e eu sabia que ia ser uma luta para ler.
Quando tinha uns 12 anos, um grande amigo me emprestou o livro Harry Potter e a Pedra Filosofal. Me lembro até hoje como eu devorei aquele livro! Foram dias e noites em claro para acabar logo com aquela história tão incrível que eu havia descoberto. Desde então, fui me infiltrando no mundo literário e nunca mais saí de lá. Também lembro o dia que descobri as lojas de sebo do Maleta (Belo Horizonte/MG), e ficava horas e mais horas sentindo aquele cheirinho de livro velho na captura de um exemplar bom e barato. A convivência com esse ambiente foi extremamente importante para a minha formação, pois descobri a riqueza desse mundo e coloquei em mente que um dia iria trabalhar nesse ramo, mas não sabia quando iria acontecer. A influência de um primo bibliófilo também foi muito importante e nossas conversas eram sempre regadas a Tolkien, Cervantes, Conan Doyle e dentre outros e isso me animava dia após dia.

A partir de então, passei anos com essa ideia na cabeça e fui montando um pequeno acervo pessoal para a criação de uma biblioteca. Infelizmente livros são caros no Brasil e minha única escolha era recorrer aos sebos (Adorava), mas livros novos era um alcance bem restrito, pois eu não trabalhava e meu pai não possuía dinheiro. Comecei a gostar tanto de livro que o cheirinho de cada um me atrai substancialmente! (Até hoje me perguntam por que eu cheiro todos os livros que abro). A capa, o tipo do papel, a dedicatória do autor e a editora eram requisitos fundamentais para aquisição de mais um título. Após longos anos me deu a ideia de formar, a principio, um sebo virtual. Esse projeto tem ocupado a meses meu tempo e minha mente, mas no final sinto muito prazer em manuseá-los, imaginar quais foram seus donos e quem irá ler eles novamente.
Porém, sinto-me angustiado a alguns dias. Quando entrei nessa ramo, conversei com inúmeros sebistas e livreiros para saber como andava o mercado, e todos me disseram que estava indo bem, mas fazia alguns anos que as vendas caíram bastante. Esse fato ocorreu pela digitalização da informação! Um dos sebistas me confidenciou que anos atrás todos recorriam a compra de livros, mesmo sabendo que haviam bibliotecas para empréstimo, mas o fato de ter o livro em mãos era o diferencial. Porém, hoje com a difusão da internet a nova geração não vivenciou o prazer de ter o livro em mãos, mas basta ter o mesmo título dentro do seu HD. Quando recebi uma doação de livros, o ex-proprietário me disse que era bom eu levar todos os títulos, pois o volume estava incomodando e a presença dos livros era um empecilho para otimizar o espaço. A partir de então, concluí que o livro passou de uma preciosidade e se transformou em expurgo.


Desde a antiguidade, percebemos a evolução do livro e sabemos como foi importante para a disseminação da informação. Em uma época os livros foram proibidos, pois dependendo do conteúdo os governantes sabiam que poderiam mudar a sociedade e se tornariam perigosos. Havia uma época que a literatura era restrita para a alta sociedade (ainda bem que hoje não é assim) e a aquisição de vários títulos era motivo de status. Grandes obras permanecem imortais pelos livros e suas várias edições. Porém, percebo que hoje esses valores foram mudados pelo mundo digital e isso me incomoda bastante. Entendo claramente que o que passou passou e o contexto de hoje é bem diferente do passado, mas mesmo assim sinto que a nova geração não dará o mesmo valor.

Há alguns dias atrás, li uma matéria no site Globo.com onde a mesma colocava uma frase do ganhador do prêmio Nobel da literatura, Mario Vargas Llosa, onde acreditava que entramos na era da banalização da literatura. O mesmo ainda afirma que a digitalização de livros levariam a decadência desse tão precioso material (Clique aqui e leia a matéria). Infelizmente a internet virou um instrumento de contra cultura, princípios de valor e sentimentos. Graças a internet eu posso escrever esse texto e enviar para qualquer pessoa no mundo, mas do que adianta ter internet e perder um riquíssimo material (livro)? Podem me chamar de careta, mas cansei de redes sociais e ficar 16 horas por dia em frente ao computador. Não quero dar uma de intelectual, mas almejo ir para um lugar sossegado com minha esposa, futuros filhos e livros até o teto. Já dizia Elis Regina: Eu quero uma casa no campo; do tamanho ideal; pau-a-pique e sapé; onde eu possa plantar meus amigos; meus discos e livros; e nada mais”. Nessa semana também li uma frase interessantíssima do Zeca Camargo em seu blog (Clique aqui): “Mais vale um bom livro na mão do que uma página de internet voando...”.

Assim, acredito que deveríamos parar de endeusar o mundo digital. Será que o mal do novo século será a internet? Vemos diariamente em noticiários que a internet incentiva ao roubo, pedofilia, traição, divórcio, prostituição, tráfico de droga e outros. Espero saber educar bem meus filhos e alertá-los sobre o mal do mundo digital e mostrá-los como é prazeroso ler um livro e descobrir novos mundos. A internet trouxe “democratização” da informação, mas onde está os velhos costumes que foram tão importante para a geração passada? Onde estão os apaixonados por livros? Será que estou ficando careta e ultrapassado? Espero que minha biblioteca não seja expurgo quando eu partir...
“Mais vale um bom livro na mão do que uma página de internet voando”


Segue abaixo um vídeo do site Flavorwire que mostra o processo de criação de um livro. Será que entrará em extinção?

Vale a pena dar uma conferida.


3 comentários:

  1. Amei o texto. Concordo plenamente com as ideias expostas. Gosto da internet, mas entendo que ela é apenas um instrumento, útil, se bem manuseada, mas nunca será para mim uma muleta como tem sudo para muitos. Quanto ao seu prazer pela leitura... Disso eu sou testemunha! É um pedacinho de você! :)

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  2. Obrigado pelo comentário querida. Amo você!

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  3. Concordo em partes com o texto, não sou uma super amante da leitura mas também gosto de livros, também gosto de ter o exemplar, mas confesso que ultimamente tenho lido tudo que posso no meu notebook, foi maravilhosa pra mim essa mudança, mas de qualquer forma sou suspeita para falar, sou amante da tecnologia e aproveito da melhor forma cada beneficio que ela me traz, mas assim como toda mudança ela também traz pontos negativos. Na minha visão a internet é um mundo paralelo e assim como no mundo real tem seus perigos e tem também coisas maravilhosas, cabe a cada um aproveitar da melhor forma possível e tomar cuidados assim como na vida real.

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