quarta-feira, 30 de maio de 2012

Saídas e Bandeiras



Ontem minha esposa me perguntou por que gosto tanto da música “Saídas e Bandeiras” do Milton Nascimento, pois eu canto, escrevo e falo muito sobre ela. Assim, disse para ela como essa música marcou minha vida. Me lembro quando estava no 3º período, um grupo realizou uma apresentação sobre Sistema Agrário Brasileiro e no final passaram um vídeo que no fundo se escutava essa música. Nesse contexto, um fato me chamou muito a atenção: Um dos nossos colegas de sala ficou extremamente exaltado e comentou bastante sobre a trilha sonora. Isso ficou na minha cabeça e determinei que precisava entender o porquê de tanta exaltação.

Quando cheguei em casa percebi que na verdade essa música fazia parte de um álbum importantíssimo da década de 1970, chamado Milton Nascimento, Lô Borges e Clube da Esquina, composto por 2 volumes. Esses discos contêm nada mais, nada menos que “San Vicente”, “Ao que vai nascer”, “Pelo Amor de Deus”, “Maria Maria”, “Me Deixa em Paz”, “Um Girassol da Cor do Seu Cabelo” e “Saídas e Bandeiras nº1 e nº2”. No auge da ditadura militar estes jovens (Lô Borges tinha 18 anos) produziram o disco que ficaria entre os 10 mais importantes da MPB. A princípio é possível observar que as músicas foram muito bem compostas e que o conjunto de sua obra é de significativa qualidade, porém, em minha opinião a música “Saídas e Bandeiras nº1 e nº2” se destaca por sua relação com meu assunto de interesse.

Milton Nascimento, Lô Borges e Clube da Esquina

Sou graduando em Ciências Socioambientais e minha formação está permitindo ter senso crítico em relação as formas de desenvolvimento econômico, relação homem x natureza, meio ambiente e etc. A música “Saídas e Bandeiras nº1 e nº2” a meu ver discorre sobre a história da exploração mineraria, o sistema capitalista e a sociedade. De fato, o homem desde o descobrimento de metais e pedras preciosa tem ferido e castigado o meio ambiente de forma voraz e sem sentimentos. Com o advento do capitalismo, o homem se tornou de forma generalizada, um ser egoísta e mesquinho. O capitalismo possibilitou a disseminação da ideia de desenvolvimento como algo a ser almejado por todos, e que a procura de uma vida melhor era relacionada com o meio urbano e muito dinheiro no bolso. O estado de Minas Gerais é um bom exemplo disso, pois o crescimento da maioria das cidades foi realizado a partir da exploração do Ouro no Séc. XVII e hoje em dia pelo disputado minério de ferro. Infelizmente, após quatro séculos ainda mantemos o mesmo ritmo desenfreado de exploração. Será que estamos certos? E a consequência disso, como será? 

Ciclo do Ouro

Em minha graduação, felizmente eu consegui presenciar de perto a degradação ambiental de mineradoras e posso afirmar que é assustadora. Sei muito bem que o mundo necessita de metais, mas será que vale a pena trocar serviços ambientais por migalhas de dólares? Há uns 20 anos, as minas exploravam uma determinada área por até 30 anos e conseguiam movimentar o sistema econômico da região por longos anos. Porém, hoje em dia percebemos que a extração do minério foi encurtada para 12 anos (Como é o caso da Mina Apolo/Vale do Rio Doce da Serra da Gandarela/MG) e impactando fortemente o meio ambiente e também a sociedade. Se pararmos para pensar podemos observar que o Brasil não necessita de tanto minério. A partir disso, podemos concluir o “X” da questão e fazermos uma simples pergunta: Para quem vai esse minério? Para a nova potencia mundial: A China! Isso mesmo, trocamos os nossos serviços ambientais (Água, Ar, biodiversidade e clima) por 0,10 centavos de dólares. Você sabia que o valor por degradar ambientalmente uma região é de 0,10 centavos de dólares por tonelada de minério? Será que está certo trocar serviços que não se consegue valorar por metal? Se fosse para alimentar alguma indústria brasileira que reinvestiria no próprio país seria menos agravante, mas alimentamos um capital externo que dá a mínima para o nosso cotidiano.

Carajás

Assim a música “Saídas e Bandeiras” de forma sutil, aborda essa situação lastimável para o planeta. O homem saiu da sua terra em troca de sonhos, endureceu o coração, perdeu a natureza, conquistou dinheiro e continua se afundando no caos. Em minha opinião, enquanto existir capitalismo vamos persistir na devastação, encher o bolso (para poucos) e perder nossa morada. Será que esse papo de sustentabilidade funciona? Vamos continuar persistindo na mesmice? Se não mudarmos nossos hábitos de consumo, continuaremos acabando com a vitalidade do planeta e o período antropoceno apenas ficará em vestígios geológicos.


Segue a música para apreciação:


2 comentários:

  1. Interesante apreciación de la canción. La buena música siempre ha de ser comprendida en su contexto sociocultural, como usted apunta en su artículo. Saludos desde Iberia

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