Ontem minha esposa me perguntou por que gosto tanto da música
“Saídas e Bandeiras” do Milton Nascimento, pois eu canto,
escrevo e falo muito sobre ela. Assim, disse para ela como essa
música marcou minha vida. Me lembro quando estava no 3º período,
um grupo realizou uma apresentação sobre Sistema Agrário
Brasileiro e no final passaram um vídeo que no fundo se escutava
essa música. Nesse contexto, um fato me chamou muito a atenção: Um dos nossos
colegas de sala ficou extremamente exaltado e comentou bastante sobre
a trilha sonora. Isso ficou na minha cabeça e determinei que
precisava entender o porquê de tanta exaltação.
Quando cheguei em casa percebi que na verdade essa música fazia parte de um
álbum importantíssimo da década de 1970, chamado Milton
Nascimento, Lô Borges e Clube da Esquina, composto por 2 volumes.
Esses discos contêm nada mais, nada menos que “San Vicente”, “Ao
que vai nascer”, “Pelo Amor de Deus”, “Maria Maria”, “Me
Deixa em Paz”, “Um Girassol da Cor do Seu Cabelo” e “Saídas
e Bandeiras nº1 e nº2”. No auge da ditadura militar estes jovens
(Lô Borges tinha 18 anos) produziram o disco que ficaria entre os 10
mais importantes da MPB. A princípio é possível observar que as
músicas foram muito bem compostas e que o conjunto de sua obra é de
significativa qualidade, porém, em minha opinião a música “Saídas
e Bandeiras nº1 e nº2” se destaca por sua relação com meu assunto de interesse.
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| Milton Nascimento, Lô Borges e Clube da Esquina |
Sou graduando em Ciências Socioambientais e minha formação está
permitindo ter senso crítico em relação as formas de
desenvolvimento econômico, relação homem x natureza, meio ambiente
e etc. A música “Saídas e Bandeiras nº1 e nº2” a meu ver
discorre sobre a história da exploração mineraria, o sistema
capitalista e a sociedade. De fato, o homem desde o descobrimento de
metais e pedras preciosa tem ferido e castigado o meio ambiente de
forma voraz e sem sentimentos. Com o advento do capitalismo, o homem
se tornou de forma generalizada, um ser egoísta e mesquinho. O
capitalismo possibilitou a disseminação da ideia de desenvolvimento
como algo a ser almejado por todos, e que a procura de uma vida
melhor era relacionada com o meio urbano e muito dinheiro no
bolso. O estado de Minas Gerais é um bom exemplo disso, pois o
crescimento da maioria das cidades foi realizado a partir da
exploração do Ouro no Séc. XVII e hoje em dia pelo disputado
minério de ferro. Infelizmente, após quatro séculos ainda mantemos
o mesmo ritmo desenfreado de exploração. Será que estamos certos?
E a consequência disso, como será?
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| Ciclo do Ouro |
Em minha graduação, felizmente
eu consegui presenciar de perto a degradação ambiental de
mineradoras e posso afirmar que é assustadora. Sei muito bem que o
mundo necessita de metais, mas será que vale a pena trocar serviços
ambientais por migalhas de dólares? Há uns 20 anos, as minas
exploravam uma determinada área por até 30 anos e conseguiam
movimentar o sistema econômico da região por longos anos. Porém,
hoje em dia percebemos que a extração do minério foi encurtada
para 12 anos (Como é o caso da Mina Apolo/Vale do Rio Doce da Serra
da Gandarela/MG) e impactando fortemente o meio ambiente e também a
sociedade. Se pararmos para pensar podemos observar que o Brasil não
necessita de tanto minério. A partir disso, podemos concluir o “X”
da questão e fazermos uma simples pergunta: Para quem vai esse
minério? Para a nova potencia mundial: A China! Isso mesmo, trocamos
os nossos serviços ambientais (Água, Ar, biodiversidade e clima)
por 0,10 centavos de dólares. Você sabia que o valor por degradar
ambientalmente uma região é de 0,10 centavos de dólares por
tonelada de minério? Será que está certo trocar serviços que não
se consegue valorar por metal? Se fosse para alimentar alguma
indústria brasileira que reinvestiria no próprio país seria menos
agravante, mas alimentamos um capital externo que dá a mínima para o
nosso cotidiano.
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| Carajás |
Assim a música “Saídas e Bandeiras” de forma sutil, aborda essa
situação lastimável para o planeta. O homem saiu da sua terra em
troca de sonhos, endureceu o coração, perdeu a natureza, conquistou
dinheiro e continua se afundando no caos. Em minha opinião, enquanto existir capitalismo vamos persistir na devastação, encher o
bolso (para poucos) e perder nossa morada. Será que esse papo de
sustentabilidade funciona? Vamos continuar persistindo na mesmice? Se
não mudarmos nossos hábitos de consumo, continuaremos acabando com
a vitalidade do planeta e o período antropoceno apenas ficará em
vestígios geológicos.
Segue a música para apreciação:
Segue a música para apreciação:









